Descoberta do i3S pode acelerar vacinas personalizadas contra o cancro
Vulnerabilidades imunológicas em tumores colorretais identificadas por uma equipa do i3S pode abrir caminho ao desenvolvimento de vacinas terapêuticas personalizadas contra o cancro.

Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou vulnerabilidades imunológicas persistentes em determinados tumores colorretais que poderão abrir caminho ao desenvolvimento de vacinas terapêuticas personalizadas contra o cancro. Os resultados do estudo foram publicados na revista científica Gut e reforçam o potencial da medicina de precisão na área da oncologia.
A investigação centrou-se em tumores colorretais caracterizados por apresentarem um elevado número de neoantigénios, moléculas alteradas produzidas pelas células tumorais que podem ser reconhecidas pelo sistema imunitário como sinais de ameaça. Em condições normais, estes sinais desencadeiam uma resposta imunitária capaz de eliminar as células anormais. Contudo, nem sempre esse mecanismo de defesa consegue cumprir a sua função.

Da esquerda para a direita: Helena Xavier Ferreira, José Carlos Machado e Carlos Resende, integram a equipa de investigação que conduziu o estudo
“Nesses casos, o tumor promove um ambiente imunossupressor que impede o sistema imunitário de completar a tarefa e, por isso, o tumor desenvolve-se”, explica Helena Xavier Ferreira, primeira autora do artigo.
Apesar de conseguirem escapar à resposta imunitária, estes tumores continuam a ser reconhecidos pelo organismo. Ao longo do seu desenvolvimento, acumulam novas mutações e passam a produzir ainda mais neoantigénios, tornando-se, paradoxalmente, mais visíveis para o sistema imunitário.
“O desafio passa a ser ajudar o sistema imune adormecido pelo ambiente imunossupressor a fazer aquilo que já sabe fazer: atacar estas células com neoantigénios”, afirma Carlos Resende, um dos autores séniores do estudo.
A identificação dos neoantigénios que desencadeiam uma resposta imunitária efetiva constitui um passo importante para o desenvolvimento de vacinas terapêuticas dirigidas ao cancro. Ao contrário das vacinas preventivas tradicionais, estas estratégias terapêuticas são concebidas para estimular o sistema imunitário de pessoas que já desenvolveram a doença, potenciando a sua capacidade de reconhecer e destruir células tumorais.
Segundo os investigadores, a principal particularidade destas abordagens reside no seu elevado grau de personalização. Cada vacina é desenvolvida a partir das características genéticas específicas do tumor de cada doente, tendo em conta as mutações presentes e os neoantigénios produzidos.
“Estamos perante uma das expressões mais avançadas da medicina personalizada. Cada vacina tem de ser desenhada para um doente específico, tendo em conta as mutações e os neoantigénios presentes no seu tumor. Uma mesma vacina não será eficaz em doentes diferentes.”
José Carlos Machado, coordenador do grupo de investigação
Além das implicações terapêuticas, o estudo contribui também para uma melhor compreensão da forma como os tumores evoluem sob a pressão exercida pelo sistema imunitário. Os resultados sugerem que, mesmo quando conseguem escapar ao controlo imunológico, alguns tumores mantêm vulnerabilidades que poderão ser exploradas através de estratégias terapêuticas mais dirigidas.
Os investigadores consideram que este trabalho reforça a perspetiva de uma nova geração de imunoterapias personalizadas, capazes de explorar as características únicas de cada tumor e de potenciar os mecanismos naturais de defesa do organismo no combate ao cancro.




