FarmaAUTISMO 360: A Farmácia Comunitária pode (mesmo) fazer mais no Autismo?

Artigo da autoria de Pedro Charneca e Sérgio Joaquim, vencedores do Prémio de Inovação em Farmácia Comunitária com o projecto FarmaAutismo360. 

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A Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) deixou há muito de ser uma realidade marginal no sistema de saúde. Hoje, é um desafio transversal, a nível clínico, social e, sobretudo, familiar; um desafio que exige respostas coordenadas, céleres e humanas. No entanto, apesar da crescente consciencialização, continua a existir um desfasamento evidente entre as necessidades das pessoas com autismo e dos seus cuidadores, e a forma como os serviços de saúde estão organizados.

Neste contexto, importa colocar uma questão simples e mas incómoda: estamos a aproveitar todo o potencial da farmácia comunitária na resposta à PEA? A resposta óbvia é não.

Muito mais do que dispensa de medicamentos, a Farmácia Comunitária e os seus Farmacêuticos são, por definição, um dos pontos de acesso mais próximos e frequentes ao sistema de saúde e muitas vezes o primeiro a ser procurado antes de o utente dirigir-se a cuidados de Saúde Primários ou Hospitalares, é muitas vezes, o primeiro local onde os cuidadores procuram orientação e esclarecimento dúvidas — não só para levantar medicação.

E, no caso do autismo, essas necessidades são particularmente complexas.

A PEA caracteriza-se por alterações na comunicação, interação social e comportamento, frequentemente acompanhadas por comorbilidades como ansiedade, perturbação do sono, epilepsia ou défice de atenção. Embora não exista tratamento farmacológico para os sintomas nucleares, a medicação desempenha um papel central na gestão dos sintomas associados.

Mas existe um problema: a gestão da medicação nestes utentes está longe de ser simples e a dificuldade na adesão terapêutica também não é simples. O utente com PEA necessita apresenta características especiais e individuais, muito devido às barreiras sensoriais que possuem e à sua resistência intrínseca à mudança de rotinas, que torna a gestão diária da medicação num processo quotidiano desafiante, quer para o utente, quer para os seus cuidadores. Deve-se denotar também que muitos dos fármacos utilizados para controlar os efeitos da PEA muitas vezes encontram-se em ruturas temporárias e cíclicas de stock, o que dificulta ainda mais o dia-a-dia dos utentes e dos seus cuidadores. E é precisamente aqui, em todos estes fatores, que a Farmácia Comunitária pode fazer a diferença.

O problema não é falta de contacto, é falta de uma estrutura de apoio com resposta rápida e adequada, pois não existem dois autistas iguais. O espectro desta perturbação é bastante largo, desde a incapacidade verbal até à intolerância ao ruído.

Apesar do contacto frequente com as famílias, a intervenção da farmácia comunitária tende a ser ainda reativa, pouco estruturada e centrada no medicamento, e não nas pessoas, perdendo-se na prática uma oportunidade clara de intervenção clínica diferenciada.

FarmaAUTISMO 360: uma proposta de mudança

O FarmaAUTISMO 360 propõe um acompanhamento estruturado, contínuo e centrado na pessoa, baseado em consultas farmacêuticas adaptadas, apoio aos cuidadores e integração com a comunidade. Além disso, propomos farmácias mais inclusivas, o que implica adaptar o ambiente da farmácia, reduzindo estímulos, criar espaços reservados e ajustando a comunicação, provendo assim a acessibilidade em Saúde, pois o  autismo obriga-nos a individualizar cuidados.

O FarmaAUTISMO 360 é um convite a uma farmácia mais humana, mais clínica e mais próxima da comunidade; porque, no Autismo, fazer mais é, sobretudo, fazer melhor!