“Protegemos demasiado os jovens dos desafios do quotidiano”

“Protegemos demasiado os jovens dos desafios do quotidiano”

A incerteza tornou-se uma presença constante na vida dos jovens, dificultando a capacidade de planear o futuro e alimentando sentimentos de insegurança e ansiedade. Em entrevista à Salus Magazine, Raquel Matos, Psicóloga e diretora da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, rejeita a ideia de uma geração menos resiliente e alerta para o impacto da hiperconectividade, da exposição permanente às crises e da falta de pausas para reflexão. Perante esse cenário, a especialista defende mais prevenção, equilíbrio digital e acesso equitativo aos cuidados de saúde mental.

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A incerteza parece ter deixado de ser uma experiência pontual para se tornar condição permanente na vida dos jovens. Que impacto está esta realidade a ter na sua saúde mental e no bem-estar?
A incerteza hoje é, de facto, vivida de forma permanente pelos jovens. E quando a incerteza se torna permanente, aumenta a dificuldade em planear o futuro, o sentimento de insegurança, e a ansiedade.

Fala-se frequentemente de uma geração menos resiliente. Na sua perspetiva, estamos perante jovens com menor capacidade para lidar com a adversidade ou, antes, perante uma geração exposta a desafios diferentes, mais complexos e mais difíceis de antecipar?
Não podemos simplesmente dizer que esta é uma geração menos resiliente. Os jovens de hoje enfrentam desafios muito diferentes dos das gerações anteriores: uma exposição constante a informação e desinformação, mudanças tecnológicas aceleradas, maior instabilidade social e económica e uma perceção permanente de crise. É natural que estas condições se traduzam em sofrimento psicológico e diminuição do bem-estar. O que observamos não é fragilidade ou falta de resiliência, mas uma reação a um contexto particularmente exigente e imprevisível.

A dependência dos dispositivos digitais e a exposição permanente a notícias, conflitos, crises e informação, muitas vezes falsa, parecem amplificar a sensação de instabilidade. Até que ponto esta hiperconectividade está a alterar a forma como os jovens vivem e regulam a incerteza?
Hoje, o modo como os jovens experienciam a incerteza é profundamente diferente do que era há uns anos ou décadas atrás. Os ambientes digitais tornam visíveis, amplificam e normalizam fenómenos de crise e conflito que acontecem em qualquer parte do mundo, contribuindo para uma perceção constante de ameaça e insegurança. Um problema acrescido é que a exposição a estes fenómenos é permanente, com pouco espaço para pausa, distanciamento e reflexão, fundamentais para regular as emoções e lidar com a adversidade. Penso muitas vezes como este cenário é diferente do que eu vivi quando era adolescente, no final da década de 1980 em Portugal. Nessa altura, o horizonte era marcado por crescente liberdade, prosperidade e otimismo em relação o futuro.

Os ambientes digitais tornam visíveis, amplificam e normalizam fenómenos de crise e conflito que acontecem em qualquer parte do mundo, contribuindo para uma perceção constante de ameaça e insegurança.

Onde devemos traçar a fronteira entre uma reação emocional expectável perante um contexto de incerteza e sinais de sofrimento psicológico que justificam a procura de ajuda especializada?
Sentir preocupação com o futuro e ansiedade perante a incerteza é perfeitamente ajustado e, como referi, não deve ser lido como fragilidade individual ou falta de resiliência. Quando a preocupação e a ansiedade se tornam persistentes e começam a interferir significativamente com as rotinas do dia a dia, é importante procurar apoio. Por exemplo, quando a ansiedade afeta o sono, a concentração, as relações interpessoais, o desempenho académico, ou quando gera sofrimento prolongado.

Que papel pode desempenhar a Psicologia na adaptação à mudança, na regulação emocional e na capacidade de os jovens construírem significado num contexto em que muitas vezes não existem respostas ou garantias claras sobre o futuro?
A Psicologia tem um papel importante, antes de mais, na criação de contextos promotores de um desenvolvimento saudável. Por exemplo, contribuir para ambientes digitais mais seguros, modelos educativos que promovam a participação e o pensamento crítico, ou contextos familiares assentes em relações de confiança e de suporte. Depois, a Psicologia pode ajudar a desenvolver recursos para lidar com a adversidade, por exemplo, através da promoção de competências sociais e emocionais. O desafio atual consiste em ajudar os jovens a desenvolver recursos para lidar com este contexto de incerteza, sem desvalorizar as dificuldades que enfrentam.

Quando falamos de saúde mental dos jovens, tendemos a centrar a responsabilidade no próprio. Que importância têm, afinal, os contextos em que este vive (família, escola, universidade, trabalho e comunidade) na criação de segurança e estabilidade emocional?
Os contextos de vida são absolutamente determinantes para a saúde mental, que não depende apenas de características individuais nem da capacidade de cada pessoa lidar com os problemas. Contextos como a família, a escola, a universidade ou a comunidade em geral devem promover oportunidades de participação e, simultaneamente, assegurar relações de confiança, suporte e previsibilidade. É esta combinação que contribui para uma maior segurança psicológica e estabilidade emocional. As experiências adversas têm de ser vividas, mas deve existir uma rede de apoio capaz de transformar essas experiências em oportunidades de crescimento e aprendizagem.

A tendência atual é proteger excessivamente as crianças e os jovens do erro e da frustração. Acredito que esta tendência esteja relacionada, pelo menos em parte, com a exposição dos próprios pais e educadores a notícias sobre crises, conflitos e violência, aumentando a sua perceção de risco.

O que podem fazer pais, professores, instituições de ensino e profissionais de saúde para criar ambientes mais seguros e previsíveis, sem cair na tentação de proteger excessivamente os jovens de todas as dificuldades e incertezas?
A tendência atual é proteger excessivamente as crianças e os jovens do erro e da frustração. Acredito que esta tendência esteja relacionada, pelo menos em parte, com a exposição dos próprios pais e educadores a notícias sobre crises, conflitos e violência, aumentando a sua perceção de risco. Por outro lado, estão também expostos a um ideal de vida e de família perfeita que existe sobretudo nas redes sociais. Mas não é possível, nem desejável, proteger as crianças e os jovens de toda e qualquer dificuldade. A adversidade faz parte do desenvolvimento humano e é através das experiências adversas que aprendemos a lidar com o erro e com a frustração, e desenvolvemos competências para resolver problemas. O papel dos adultos é criar condições para que os jovens enfrentem dificuldades de forma segura, sabendo que têm apoio quando for necessário. Há hoje um grande paradoxo: protegemos demasiado as crianças e os jovens dos desafios do quotidiano, mas estão expostos permanentemente às crises no mundo digital.

Se tivesse de apontar algumas prioridades para promover a saúde mental dos jovens nos próximos anos, quais seriam as mudanças mais urgentes nos contextos educativos, sociais e de saúde?
Vou destacar três prioridades. A primeira é antecipar a promoção da saúde mental. As próprias universidades estão a desenvolver iniciativas importantes nesta área, mas o ideal é começar muito antes, durante a infância e a adolescência. A segunda prioridade é criar condições para as crianças e os jovens viverem com mais equilíbrio o “mundo digital”, procurando recuperar espaços de brincadeira, de interação social e de autonomia no “mundo real”. A terceira prioridade é garantir mais e melhores cuidados de saúde mental e um acesso mais rápido e equitativo a estes cuidados.