Quando a tecnologia entra na farmácia, o que fica para o farmacêutico?
Artigo escrito por Manuela Jesus, presidente do Conselho Fiscal da APFPC – Associação Portuguesa de Farmacêuticos para a Comunidade

A inteligência artificial (IA) está a transformar a forma como trabalhamos. O verdadeiro desafio é usá-la sem comprometer aquilo que torna a farmácia genuinamente humana. Ser Diretora Técnica de uma farmácia comunitária é acompanhar diariamente uma profissão em constante evolução. A farmácia há muito que deixou de ser apenas o local onde se dispensam medicamentos. Atualmente, é um espaço de proximidade, prevenção, acompanhamento e promoção da saúde, onde o farmacêutico desempenha um papel cada vez mais relevante no percurso de saúde do utente.
E, entretanto, chegou a IA. A questão que se põe, já não é se a IA vai entrar na farmácia. Ela já entrou. Em muitos contextos, já faz parte do nosso dia a dia. A verdadeira questão é outra: o que queremos que ela faça por nós e o que queremos, nós próprios, continuar a fazer?
A IA pode ser uma verdadeira aliada no dia a dia da farmácia, ajudando-nos a organizar informação, simplificar tarefas e ganhar tempo em processos que, muitas vezes, nos ocupam demasiado. E esse tempo pode ser muito mais valioso quando o podemos dedicar ao que realmente importa: acompanhar melhor, prevenir, educar para a saúde, promover a adesão à terapêutica e, acima de tudo, estar mais presentes para quem entra na farmácia.
Se estas ferramentas nos permitem reduzir o tempo dedicado a tarefas repetitivas, esse tempo pode ser investido onde o farmacêutico acrescenta verdadeiro valor: no acompanhamento, na prevenção, na educação para a saúde, na adesão terapêutica e, sobretudo, na relação com o utente.
Porque uma resposta certa nem sempre é uma boa decisão. Uma ferramenta de IA consegue processar uma quantidade enorme de informação em poucos segundos, mas há coisas que não cabem num algoritmo. Não reconhece, da mesma forma, a hesitação na voz de um utente, a preocupação de quem não consegue pagar a medicação ou o contexto familiar e social que pode estar por trás da forma como alguém toma um medicamento. E, sobretudo, não conhece verdadeiramente a pessoa que temos à nossa frente. Nem assume a responsabilidade profissional pelo cuidado que prestamos.
É aqui que o papel do farmacêutico continua a ser insubstituível. Porque a nossa profissão nunca foi apenas sobre informação. É sobre saber ouvir, interpretar, questionar, tomar decisões e assumir responsabilidades. É sobre pessoas. Esta transformação traz também novos desafios à liderança das equipas. Não basta disponibilizar novas ferramentas e esperar que sejam utilizadas. É necessário formar profissionais, desenvolver literacia digital e estimular o espírito crítico. Uma equipa preparada para o futuro não é aquela que simplesmente utiliza mais tecnologia, mas aquela que sabe quando confiar, quando questionar e quando o conhecimento e a experiência profissional devem prevalecer.
Talvez esta seja, afinal, uma das maiores oportunidades que a tecnologia nos pode oferecer: menos tempo gasto em tarefas, mais tempo para cuidar. A resposta à automatização de processos, não deve ser simplesmente fazer mais. Deve ser fazer melhor.
A farmácia do futuro será, sem dúvida, mais tecnológica. Mas não poderá ser menos humana. Não acredito num futuro de farmacêutico versus tecnologia. Acredito num futuro de farmacêutico com tecnologia. A IA poderá ajudar-nos a encontrar respostas, processar informação e tomar decisões mais informadas. Mas continuará a caber ao profissional compreender a pessoa, avaliar o contexto e assumir a responsabilidade pela decisão.
Enquanto Diretora Técnica, vejo esta transformação não como uma ameaça, mas como uma oportunidade para reafirmarmos aquilo que fazemos de melhor: cuidar de pessoas. Porque, no futuro da farmácia, a tecnologia poderá ser cada vez mais inteligente. Mas o cuidado continuará a precisar de pessoas.
*5 regras para uma utilização responsável da IA na farmácia
1. Validar
A IA apoia o farmacêutico, mas não substitui o seu julgamento profissional.
2. Proteger
Nunca introduzir dados pessoais, clínicos ou qualquer informação confidencial dos utentes.
3. Confirmar
Informação clínica deve ser sempre confrontada com fontes científicas, oficiais e atualizadas.
4. Questionar
Uma resposta rápida e convincente não significa necessariamente que esteja correta. O pensamento crítico continua a ser indispensável.
5. Humanizar
Usar a tecnologia para ganhar tempo para aquilo que nenhuma ferramenta consegue substituir: ouvir, acompanhar e cuidar.
A tecnologia ajuda. E sim, este texto teve uma pequena ajuda da IA. Mas, a responsabilidade continua a ser humana.




