Imunização ao longo da vida: especialistas defendem novo programa nacional

Imunização ao longo da vida: especialistas defendem novo programa nacional


Grupo de especialistas nacionais defende criação de programa de imunização dos 0 aos 100 anos, como resposta aos desafios do envelhecimento da população e à sustentabilidade do sistema de saúde.

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A proposta surge no âmbito do Mês da Imunização, que integra a Semana Europeia da Imunização e a Semana Mundial da Imunização, que se assinala de 24 a 30 de abril, e pretende alargar à idade adulta o sucesso já alcançado por Portugal na vacinação infantil.

A iniciativa ganha força num momento em que se discute a revisão do Programa Nacional de Vacinação para adultos e acompanha o apelo da Organização Mundial da Saúde, que este ano assinala a data sob o lema Para cada geração, as vacinas funcionam. Para os especialistas envolvidos, a transição de um modelo centrado na infância para uma abordagem contínua ao longo da vida é não só necessária, como inevitável.

Filipe Froes, pneumologista e um dos principais impulsionadores da proposta, sublinha que “Portugal reúne condições para dar esse passo, depois de décadas de resultados positivos no âmbito do Programa Nacional de Vacinação”. A estratégia passa por adotar um plano integrado que cubra todas as fases da vida, com metas ambiciosas de cobertura vacinal, nomeadamente através do modelo 95-95-95, direcionado a grupos prioritários como pessoas com mais de 65 anos, doentes crónicos e profissionais de saúde.

A base desta ambição está, segundo Filipa Prata, especialista em pediatria, no facto de que, em Portugal, “conseguimos algo extraordinário graças ao nosso Programa Nacional de Vacinação. Doenças que marcaram gerações, como a difteria, a poliomielite e o sarampo, são agora memórias muito distantes. Atingimos taxas de cobertura vacinal muito elevadas na infância, que são um exemplo para todo o mundo”.

Já Sofia Duque, especialista em Medicina Interna, aforma que “a ligação entre infeções e envelhecimento é cada vez mais evidente, defendendo que a vacinação deve ser encarada como um investimento e não como um custo”, alertando que “a exposição acumulada a infeções ao longo da vida contribui para processos inflamatórios que aceleram a perda de qualidade de vida em idades mais avançadas”.

A perspetiva dos doentes crónicos reforça esta necessidade. José Albino, da associação RESPIRA, destaca que, para pessoas com doenças respiratórias como a DPOC, a imunização representa a principal linha de defesa contra infeções que frequentemente resultam em hospitalizações e agravamento do estado clínico.

Também a indústria farmacêutica acompanha esta visão. Helena Freitas, diretora-geral da Sanofi em Portugal, defende que “a prevenção deve assumir um papel central no futuro do Serviço Nacional de Saúde, sublinhando que “a expansão da vacinação à idade adulta pode traduzir-se em ganhos significativos em saúde e qualidade de vida”.

A dimensão global do impacto das vacinas reforça o argumento. De acordo com a Organização Mundial da Saúde e dados publicados na revista científica The Lancet, os programas de vacinação terão salvado pelo menos 154 milhões de vidas entre 1974 e 2024. Para os especialistas, estes números demonstram que a imunização ao longo da vida não é apenas uma medida de saúde pública, mas um pilar estratégico para responder aos desafios demográficos e garantir um envelhecimento mais saudável.